Recentemente o querido Matheus Barbosa começou a postar notícias sobre a pós em desenho de tipos que está fazendo na UBA. Portanto, recomendo a leitura de mais este blog tipográfico.

Engraçado foi ler a postagem que ele fez sobre a aula da última quinta feira, citando Mauricio de Nassau e incluindo o link do Mauritshuis que fica a 650 metros da minha casa aqui na Holanda, que aliás devo visitar na próxima semana quando meus pais estiverem por aqui. Uns dias de folga vão fazer bem. 

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Os dias já são mais longos, anoitecendo as 21h, as árvores já começam a florescer, a vida fica mais bonita, fato!

Incrível como a sensação de mudança de estação muda também a rotina e o humor. Claro que isso é resultado perceptível em países que tem inverno rigoroso, efetivamente, com dias curtos, muito céu cinza, chuva e neve. Mas agora o ambiente é outro, as temperaturas já estão subindo, geralmente em torno de 10ºC, e para alegria geral chegou a 20ºC no sábado passado, resultado? Dia de ir pra praia! Sair de casa de manga curta, inacreditável!

Na KABK as pessoas já aproveitam o pátio nos intervalos, e na sexta até tinha uma mini festa rolando, com música, bebida e diversão. Maaas… como atualmente moro numa bolha, mais conhecida como t]m, apesar do sol e céu azul os dias são de trabalho, afinal de contas faltam 80 dias para a apresentação final, mas ainda tem muita água pra passar por debaixo desta ponte.

Um cronograma bem apertado faz com que eu acabe não postando muito, mas prometo que de vez em quando ainda mando notícias.

Até mais!

Este nome deve ser conhecido pela maioria, mas provavelmente por causa da The Enshedé Font Foundry, mas além de ser o nome de uma cidade holandesa, também é o nome de uma gráfica que se estabeleceu na cidade de Haarlem em 1703, como explica melhor o primeiro link. Por lá passaram grandes nomes da tipografia na Holanda e toda a história está registrada e guardada no seu museu: Koninklijke Joh. Enschedé. Felizmente tivemos a oportunidade de visitar este espaço no início do mês, e não é de surpreender que o acervo é de cair o queixo, mas com certeza tudo é muito mais impressionante e incrível do que eu podia imaginar.

Para começar, por uma questão de segurança, tivemos que enviar nomes completos e passaportes de todos os visitantes com antecedência, e geralmente o grupo é de no máximo 10 pessoas. Chegando lá, não apenas precisamos levar os documentos, mas como também deixar tudo trancado em armários na entrada, inclusive câmeras fotográficas e telefones celulares, e ainda após nos identificarmos com o crachá recebido somos pesados na entrada e na saída. Isso tudo é justificado pelo fato de que no complexo de prédios onde fica o museu também está a gráfica que imprime cédulas de euro e selos não só da Holanda, mas como de outros países da União Européia. E depois de tudo isso, chegamos ao cofre! Sim, o museu fica dentro de um grande cofre, com grade e porta gigante de aço.

Johan de Zoote é o responsável pelo acervo ha alguns anos, e confessa que ja catologou milhares de itens, mas não vai conseguir completar o trabalho até sua aposentadoria, é muito material. Nós vimos uma pequena amostra de tudo que eles guardam, e mesmo que ficasse escrevendo durante horas, não conseguiria terminar de descrever as bíblias raras, o mobiliário histórico, os selos, as cédulas, os impressos, os tipos, os livros, as bíblias raras, … Ou seja, recomendo e muito uma visita, previamente agendada obviamente, pois ele trabalha sozinho e não tem muito tempo disponível.

Não pudemos tirar fotos no espaço, mas cada um ganhou uma letra de um tipo Didot de 2pt, minúsculo, e ainda assim legível, e é a letra “m” entre os meus dedos acima, apesar de mal dar para ver na foto, dá para ter idéia do tamanho e só imaginar o trabalho para fazê-lo. Para ajudar nesta ilustração, acho melhor indicar a foto do “g” feita pelo John Lane e apresentada na sua palestra na St. Bride.

Antes de voltar para Den Haag passamos na Ikea para um breve lanche com gostinho escandinavo. A volta foi bem difícil, mas esta é outra história, e nem vale a pena contar, só comentar: ah os trens na Holanda… argh!


Em março tivemos a primeira aula com o Gerard Unger, professor convidado. Ele apresentou a história de uma de suas famílias, a Capitoleum. O mais interessante foi perceber como ele dá um banho de sabedoria com questões técnicas e aula de história embutidas em um processo de desenho de tipo, ou seja, não é só a descrição do trabalho, a evolução, etapas e decisões, mas todo o contexto e suas histórias deliciosas.

Na última semana foi a vez do Miguel Sousa dar um workshop sobre o Adobe Font Development Kit for Open Type (AFDKO), ou simplesmente FDK. Foram 3 dias de questões técnicas muito bem explicadas e detalhadas, passo a passo, de uma forma fácil de entender e possível de usar. Excelente! A única questão é que a ferramenta ainda não está integrada com o formato UFO, então para nós a utilidade acaba sendo um pouco menor, mesmo assim, vale a pena.

Para completar, os alunos de Reading estavam em excursão e fizeram um visita super rápida por aqui, mas pelo menos pudemos aproveitar uma noite com alguns deles que aproveitaram para dormir em Den Haag antes de visitarem o Museu Meermano. Esta noite acabou rendendo um super jantar com a Joana e o Miguel, e continuando o papo em português no bar com a Luísa. Esta semana agitada terminou com uma pequena viagem a Haarlem. De volta ao trabalho…

A pedidos…

Os interessados no Type&Media devem sempre entrar em contato com o Jan Willem Stas, que é o coordenador do curso. Ele que manda informações e organiza a lista de inscritos, portfolios, entrevistas, selecionados, etc. A partir do primeiro contato o candidato já fica sabendo o que deve enviar, quando, como e para onde – geralmente o portfolio, currículo e carta de intenção, por e-mail ou correio, e cópias de documentos como diploma de graduação e passaporte, via correio para a KABK. Em todo caso o material deve estar nas mãos deles por aqui até o fim de janeiro, pois as entrevistas (se a pessoa tiver disponibilidade para vir) são no último final de semana do mês, junto com o OpenDay. Depois disso é só esperar…

Esperar e esperar até abril! Sim, a resposta demora, e não tem jeito, não adianta mandar e-mail antes perguntando. Sei que a turma do ano que vem já está praticamente formada, e já sei de gente que recebeu e-mail de confirmação, mas eles ainda não divulgaram nada. Estou curiosa!

Depois deste primeiro e-mail com o “sim” oficial, tudo é bem tranquilo, e só tem que começar a providenciar documentos, pagamentos, lugar para morar, etc. pois do visto eles cuidam. E daí é só esperar de novo, desta vez até setembro, quando começa o curso. Geralmente o pessoal da turma anterior ajuda, eles oferecem os lugares onde moram para os calouros alugarem em seguida, dão dicas de onde comprar materiais, …

O curso não é caro, quer dizer, pelo menos eu não acho, comparando com outros cursos de pós graduação no exterior e mesmo com muitos cursos de graduação no Brasil. Para estrangeiros são €4.000,00 o ano todo, ou melhor, os 10 meses de duração do curso. Sei que existe a possibilidade de bolsa, mas que não é fácil conseguir, de qualquer forma, encarei como investimento, trabalhei, juntei grana e paguei. A manutenção mensal varia de acordo com o padrão de vida que vai ter por aqui, isso significa aluguel em primeiro lugar e depois se come fora ou cozinha em casa, se sai, viaja, vai ao cinema, … ou não. De qualquer forma diria que em média o gasto é de €1.000,00 por mês, ficando tranquilo, mas dividindo casa.

Não recomendo a ninguém tentar garantir o dinheiro do mês vivendo de freela enquanto faz o curso, é impossível. São 10 meses de muito trabalho e que não vale a pena arriscar dividir atenção com outros projetos. De novo, esta é a minha visão, pois sei de gente que trabalhou ao mesmo tempo, mas sempre algo vai ser sacrificado no processo, sejam as aulas ou o trabalho à parte. Eu trouxe projetos para cá, terminei o que precisava nos primeiros meses e continuo fazendo, aos poucos, o que tenho como compromissos extras, como ADG e ATypI.

Sobre como preparar o material… putz, difícil dizer pois os critérios do processo de seleção, ou pelo menos o que sei, são bem amplos e eles não consideram apenas o que a pessoa tem na bagagem, mas como isso contribui com o curso, como vão formar um grupo heterogêneo, onde cada um tem um tipo de conhecimento e habilidade, de que país vem, que língua fala … ou seja, é meio loteria, mas é óbvio que conta pontos mostrar o interesse pelo desenho de tipos, sketches, processos de projeto, e não só o resultado final.

Para resumir: Janeiro – prazo para recebimento dos portfolios, Abril – resultado da seleção, Setembro – início das aulas, Junho (do ano seguinte) – apesentação final, graduação e exposição.

Bom, acho que é isso. espero ter ajudado. Mais alguma pergunta?

Depois de algumas semanas de correria, finalmente uma semana de férias, de verdade. Sem nenhum trabalho com prazo urgente, colocamos o pé na estrada, eu e o Yanone. Começando a viagem as 7:30 da manhã de sábado em Den Haag, passamos pela Bélgica, paramos em Calais na França, de onde pegamos a balsa até Dover e continuamos pela estrada na Inglaterra até Reading.

Ele foi dar um workshop sobre suas ferramentas tipográficas para a turma do mestrado de lá, e eu aproveitei para bisbilhotar a biblioteca da Universidade e curtir a companhia do querido Sébastien Morlighem, além de esticar a visita até segunda-feira para assistir a aula do Michael Twyman, como de costume. Desta vez o tema foi entalhe em madeira (que não é a mesma coisa que xilogravura).

Com um desvio rápido até Oxford, seguimos para Londres, que continua caótica, nem tanto quanto São Paulo, mas igualmente adorável (gosto não se discute, tá?). No V&A uma exposição muito bem montada sobre o ISOTYPE (International System of TYpographic Picture Education). Para quem não conhece este sistema, vale dar um Google.

Na sequência, St. Bride Printing Library. Com a sexta edição de palestra em memória do Justin Howes marcada para a noite, a biblioteca lotou mais que de costume à tarde, e virou praticamente uma sala de bate papo entre amigos. O super hiper paciente Nigel Roche atendia o telefone e categoricamente avisava: “A palestra já está lotada, daqui a dez meses reserve o seu ingresso para a do ano que vem”. Com uma boa turma reunida, incluindo Vik Burian, Alice Savoie, Marc Weymann e Titus Nemeth, aproveitamos a brecha para dar um pulo até o pub mais próximo. A palestra foi ministrada por John A. Lane, conhecido pesquisador e historiador tipográfico. Ele discorreu sobre tipos holandeses, os menores tipos já produzidos, e suas descobertas sobre o trabalho de Nicolaes Briot, que vai ganhar um revival digital pelas mãos do Alejandro Lo Celso. (Na primeira foto é uma semente de gergelim). Para descontrair, jantar no Wagamama com equipe DaltonMaag (Amélie Bonet, Pilar Cano, Francesca Bolognini e Jonathan Pierini), turma do MATD, Yanone e Séb.

Dia seguinte com visitas para matar saudades das pessoas e dos lugares, começando pelo LCC e o metre Paul McNeil, almoço com Chrysostomos Naselos, tarde na despedida da Catherine Dixon no Departamento de Tipografina da CSM, e jantar com o querido anfitrião David Lozano. Mais alguns dias em Londres ia bem.

Mas… na quinta voltamos com pé na estrada, mas paramos na Bélgica, mais especificamente em Gent para encontrar o Yves Peters, que fez um tour incrível com a gente pelo centro histórico, seguido por jantar, pit stop no B&B e bar para encerrar com chave de ouro. Foi uma das noites mais agradáveis dos últimos tempos, e Gent é fofíssima! Recomendo.

Sexta de manhã, um passeio rápido por Gent para ver a cidade à luz do dia, e a volta para Den Haag. Um trânsito monstro por causa de um acidente na estrada me fez lembrar a Marginal. Estou em casa, literalmente. Mais fotos no Flickr.

Em dezembro recebemos um briefing de um workshop da Typeradio. A Liza nos entregou um trecho de som em mp3 que deveria nos servir de inspiração para criarmos um projeto de fonte. Os trechos haviam sido produzidos por alunos da Indra Kupferschmid em Saarbrücken na Alemanha, por sua vez, baseados em doze fontes holandesas, sendo uma parte, desenhada pelos nossos professores. Sem sabermos o tipo que deu origem ao som, traduzimos as “músicas” visualmente e apresentamos os conceitos e alguns sketches iniciais ao Donald Beekman e ao Bas Jacobs em uma reunião informal no café da Universidade de Amsterdam.

Recebemos as devidas críticas e continuamos a trabalhar no projeto nas duas semanas seguintes.

Na sexta, dia 18/02/11, o auditório da KABK estava bem cheio, pois além da nossa turma e o time da Typeradio, estavam presentes os alunos alemães, que vieram especialmente para isso, a maior parte dos type designers que cederam suas fontes para inspiração, convidados e interessados. A tarde foi muito agradável, cheia de surpresas e resultados inusitados que aparentemente agradaram a todos.

No meu caso, o som que recebi não tinha absolutamente nada a ver comigo, então foi um bom sacrifício conseguir fazer algo sair, mas o desafio foi interessante e rendeu boas páginas de sketches. No começo só podia pensar em decompor o que estava ouvindo em uma sequência gráfica, identificando os atributos de cada trecho, mas no fim cheguei à conclusão que aquilo só poderia ser o monstro do Dr. Frankenstein, e só assim consegui produzir caracteres torturados, aflitos, pesados, estranhos, que tem suas estranhezas, mas ainda fazem parte de um conjunto. Para a minha surpresa a fonte original era a FF Massive do próprio Donald, que supervisionou todo o processo. Dei de presente a ele um caderno que fiz com todos os sketches e alguns prints das fontes finais, só me esqueci de fotografar antes.

Depois de um bom tempo de apresentações passamos aos comes e bebes no hall do estúdio, com direito a partidas de pebolim, claro.

Não posso deixar de comentar o projeto do Kunihiko. Ele produziu uma fonte maravilhosa baseada no processo de desenho de letras com lápis duplo, transformando as duas linhas em uma só, em movimentos fluídos que depois deram origem a ligaturas super especiais. Como sempre ele superou expectativas e não apenas fez os caracteres e ligaturas, mas na primeira semana já havia planejado toda a família, incluindo diferentes pesos e efeitos. Por incrível que pareça, a fonte que deu origem ao som foi a DTL Documenta do nosso professor Frank Blokland. O resultado é tão fenomenal que ganhou até um destaque dos organizadores. Muito orgulhosa de poder conviver com alguém tão talentoso.

Mais fotos no Flickr.